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Dívidas e crédito

Como sair das dívidas: passo a passo realista

Passo a passo para sair das dívidas: levantar tudo o que deve, ordenar por juros, cortar rotativo e cheque especial, negociar e pagar com método.

Por Redação Centavo CertoAtualizado em · 9 min de leitura · Nível iniciante

Sair das dívidas é um processo com etapas definidas: levantar tudo o que você deve, ordenar pelos juros, parar de alimentar as linhas mais caras, negociar e pagar seguindo um método. Não existe atalho, mas existe caminho, e ele cabe em um plano que vai de alguns meses a alguns anos, dependendo do tamanho do problema. Comece pelo número que vem antes de qualquer plano: quanto você deve hoje, somando tudo.

Passo 1: descubra exatamente quanto você deve

Muita gente endividada não sabe o número total. Sabe que "está devendo", mas não sabe quanto, para quem e a que juros. Sem esse número, qualquer plano é chute.

Comece por três consultas gratuitas:

  • Registrato, do Banco Central (BC): com o login da conta gov.br, você acessa o relatório de empréstimos e financiamentos que as instituições financeiras informam ao BC. Ele mostra contratos ativos, saldos e parcelas em atraso em bancos, financeiras e cooperativas.
  • Serasa: pelo site ou aplicativo, você vê se há dívidas negativadas no seu CPF e quais empresas registraram. A Serasa é um birô de crédito, ou seja, uma empresa que reúne informações sobre pagamentos e atrasos.
  • SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito): outro birô. Uma dívida pode estar registrada em um e não no outro, então consulte os dois.

Depois, junte o que não aparece nessas consultas: parcelas atrasadas com lojas, conta de luz ou água em aberto, dinheiro emprestado por parentes, mensalidade escolar, aluguel. Dívida informal também é dívida.

Monte uma lista com cinco colunas: credor, saldo atual, taxa de juros ao mês, parcela mensal e situação (em dia, atrasada, negativada). Se não souber a taxa, pergunte ao credor ou procure no contrato. Esse é o mapa de onde você está. Se precisar de ajuda para organizar, o artigo sobre planilha de gastos tem um modelo que serve de base.

Passo 2: ordene as dívidas pelos juros

Dívida não é tudo igual. Mil reais no rotativo do cartão crescem muito mais rápido do que mil reais em um financiamento de veículo. Por isso a lista precisa ser ordenada da taxa mais alta para a mais baixa.

Em termos gerais, o rotativo do cartão de crédito e o cheque especial estão entre as linhas mais caras do mercado brasileiro. Empréstimo pessoal sem garantia costuma vir em seguida. Consignado, financiamento de veículo e financiamento imobiliário tendem a ter juros bem menores, porque têm garantia ou desconto em folha. As taxas médias praticadas são publicadas pelo Banco Central e mudam com o tempo, então confira lá antes de comparar.

Em um exemplo simples, imagine uma pessoa com estas dívidas (juros hipotéticos):

Dívida Saldo Juros ao mês (exemplo) Juros no primeiro mês
Rotativo do cartão R$ 2.000 12% R$ 240
Cheque especial R$ 1.500 8% R$ 120
Empréstimo pessoal R$ 6.000 3% R$ 180
Carnê de loja R$ 800 5% R$ 40
Total R$ 10.300 R$ 580

Olhe o que essa conta revela. O empréstimo pessoal é a maior dívida em valor, mas o rotativo, que tem um terço do tamanho, gera mais juros por mês. Se essa pessoa consegue separar R$ 800 por mês para as dívidas, R$ 580 somem só em juros e apenas R$ 220 reduzem o que ela deve de fato. É por isso que a ordem importa.

Passo 3: corte o que sangra

Antes de pensar em pagar, pare de alimentar as dívidas mais caras. Três ações:

  1. Pare de usar o cartão de crédito enquanto houver saldo no rotativo. Se possível, guarde o cartão e use débito ou dinheiro. Se o limite for uma tentação, peça ao banco para reduzi-lo.
  2. Saia do cheque especial e peça o cancelamento ou a redução do limite. Enquanto o limite existe, a conta entra no negativo sozinha todo mês e os juros continuam. O artigo sobre cheque especial detalha as saídas.
  3. Troque dívida cara por dívida barata, quando der. Pegar um crédito pessoal com juros menores para quitar o rotativo e o cheque especial pode reduzir muito o custo mensal. A regra é comparar o Custo Efetivo Total (CET), que inclui juros, tarifas, seguros e impostos, e não só a taxa anunciada.

No exemplo acima, se o rotativo e o cheque especial fossem trocados por uma linha hipotética de 3% ao mês, os juros dessas duas dívidas cairiam de R$ 360 para R$ 105 por mês. Os R$ 255 de diferença passam a abater o saldo em vez de sumir. A portabilidade de crédito é um dos caminhos para isso.

Um aviso: trocar dívida só funciona se você não voltar a usar o limite antigo. Quem quita o cartão com um empréstimo e enche o cartão de novo fica com duas dívidas em vez de uma.

Passo 4: negocie antes de pagar

Dívida atrasada quase sempre pode ser negociada, e dívida negativada há mais tempo costuma vir com descontos maiores, porque o credor prefere receber parte a não receber nada. Não pague o valor cheio sem antes perguntar.

Os canais são os próprios aplicativos dos bancos e lojas, plataformas de renegociação como o Serasa Limpa Nome, os mutirões de negociação que acontecem de tempos em tempos e, em caso de conflito, o Consumidor.gov.br e o Procon. O artigo como negociar dívidas explica o que pedir e o que não aceitar.

Duas regras ao negociar:

  • Só feche um acordo cuja parcela cabe de verdade no orçamento. Acordo quebrado costuma cancelar o desconto e devolve a negativação.
  • Guarde tudo por escrito: proposta, termo de acordo, boletos e comprovantes.

Passo 5: escolha um método, bola de neve ou avalanche

Com a lista ordenada e os acordos fechados, você precisa de um método para distribuir o dinheiro disponível todo mês. Os dois mais usados são:

  • Avalanche: paga o mínimo de todas as dívidas e concentra o que sobra na de juros mais altos. Quando ela acaba, passa para a próxima da lista. É o método que custa menos no total.
  • Bola de neve: paga o mínimo de todas e concentra o que sobra na de menor saldo, independentemente dos juros. Quando ela acaba, o valor que você pagava nela vai para a próxima. Custa um pouco mais em juros, mas dá vitórias rápidas, e isso ajuda a não desistir.

Voltando ao exemplo, com R$ 800 por mês e as duas dívidas caras já trocadas por uma linha de 3% ao mês (saldo de R$ 3.500):

  • Na avalanche, a ordem seria: carnê da loja (5%), depois o empréstimo pessoal e a linha nova (3%, empate). O carnê de R$ 800 sairia nos dois primeiros meses.
  • Na bola de neve, a ordem seria: carnê da loja (R$ 800), depois a linha nova (R$ 3.500) e por último o empréstimo pessoal (R$ 6.000).

Nesse caso os dois métodos começam igual, o que é comum quando a menor dívida também é a mais cara. A diferença aparece quando a menor dívida tem juros baixos. Se as taxas forem parecidas, escolha pelo que mantém você motivado. Se a diferença de taxa for grande, a avalanche compensa.

Uma dica prática: quando uma dívida termina, não absorva a parcela que sobrou no dia a dia. Jogue tudo na próxima. É esse efeito acumulado que acelera o processo.

Passo 6: feche a torneira

Nada disso funciona se uma nova dívida entrar pela porta dos fundos. Três cuidados:

  • Orçamento mensal: saiba quanto entra e quanto sai. Sem isso, o cartão vira complemento de renda. O artigo como fazer um orçamento pessoal mostra o passo a passo.
  • Reserva mínima: mesmo pagando dívidas, separe um valor pequeno por mês (pode ser R$ 50) para imprevistos. Sem reserva, qualquer pneu furado vira rotativo de novo. Depois de quitar as dívidas caras, aumente esse valor; veja reserva de emergência.
  • Sem parcelamento novo: durante o plano, nenhuma compra parcelada, mesmo "sem juros". Cada parcela nova é uma dívida nova.

Renda extra também acelera: vender o que não usa, fazer um trabalho por fora, um bico temporário. O artigo sobre renda extra traz ideias realistas e o que evitar.

Quando buscar ajuda

Se, feitas as contas, as parcelas mínimas somadas já ultrapassam o que você ganha, o problema não é de disciplina, é estrutural. Aí entram os canais de apoio:

  • Procon: pode intermediar negociações com empresas e orienta sobre direitos.
  • Consumidor.gov.br: plataforma pública em que você registra uma reclamação e a empresa responde dentro do prazo definido pelas regras do serviço.
  • Lei do Superendividamento (Lei 14.181/2021): alterou o Código de Defesa do Consumidor e criou um processo de repactuação de dívidas. A pessoa de boa-fé, que não consegue pagar o conjunto das dívidas de consumo sem comprometer o mínimo existencial, pode pedir uma negociação em bloco com todos os credores, em audiência de conciliação. O plano de pagamento pode ter prazo de até cinco anos, e os Procons podem conduzir a fase de conciliação. A lei exclui alguns tipos de dívida, como financiamento com garantia real, crédito rural e dívidas de produtos de luxo ou contraídas de má-fé.

Se a sua situação parece se encaixar nesse caso, procure o Procon da sua cidade ou a Defensoria Pública. O que fazer depende de cada caso, e orientação jurídica individual vem de um profissional, não de um blog.

Desconfie de quem oferece "limpar o nome" por dinheiro. Nenhuma empresa apaga dívida. O que existe é negociar e pagar, e isso você faz sozinho, pelos canais oficiais, de graça.

Próximos passos

  1. Hoje: entre no Registrato, na Serasa e no SPC Brasil e anote todas as dívidas.
  2. Monte a lista com credor, saldo, juros, parcela e situação, ordenada da taxa maior para a menor.
  3. Pare de usar o cartão e o cheque especial e peça redução ou cancelamento dos limites.
  4. Tente negociar cada dívida atrasada antes de pagar, começando pela mais cara.
  5. Escolha avalanche ou bola de neve e defina o valor fixo que vai para as dívidas todo mês.

Perguntas frequentes

Qual dívida devo pagar primeiro?
Em geral, a de juros mais altos, que costuma ser o rotativo do cartão ou o cheque especial. Se você precisa de vitórias rápidas para manter o ritmo, o método bola de neve (menor saldo primeiro) também funciona. O que importa é escolher uma ordem e não parar.
Vale a pena fazer um empréstimo para pagar outras dívidas?
Pode fazer sentido quando a nova linha tem Custo Efetivo Total claramente menor e você não volta a usar o limite antigo. Compare o CET, o prazo e a parcela antes de assinar, e peça o cancelamento ou a redução dos limites que causaram o problema.
A dívida some depois de 5 anos?
O registro negativo sai do birô de crédito depois de cinco anos, por regra do Código de Defesa do Consumidor, mas a dívida continua existindo e pode ser cobrada fora da Justiça. Não conte com o prazo como plano.
O que é a Lei do Superendividamento?
É a Lei 14.181/2021, que alterou o Código de Defesa do Consumidor e criou um processo de renegociação de todas as dívidas de consumo de uma vez, preservando um mínimo para a pessoa viver. A fase de conciliação pode acontecer no Procon ou na Justiça.

Fontes e referências

Aviso. Este conteúdo é educativo e não substitui orientação profissional. Taxas, limites e regras citadas mudam com o tempo; confira sempre o valor vigente na fonte oficial antes de decidir. O Centavo Certo não recomenda produtos, não intermedeia crédito e não recebe para indicar instituições. Leia o aviso legal.
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Fonte: Banco Central do Brasil (série temporal SGS), consultado ao abrir a página.

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